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Carola Ponto e Vírgula

Carola Ponto e Vírgula

De: Mim

Para: 25 de Abril

Data: Era para ser ontem, mas hoje é que é feriado!

 

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Antes de mais, meu estimado 25 de Abril muitos parabéns por mais um ano, neste dia que é só teu.

Sabes, só de há umas décadas para cá — faz hoje 44 anos, para ser mais exacto — tu és festejado no meu país como um dia histórico. Foi no ano de 1974, que quando tu apareceste em Portugal acabou a ditadura. Desde então é um dia em que todos os portugueses te acarinham, principalmente por ser feriado.

 

Eu ainda não era nascido, mas fui obrigado a aprender muito sobre ti na escola (onde é que está a liberdade?!) nesse ano da revolução dos cravos. Até tens uma flor a celebrar-te. Antes desse ano, tu eras um dia como os outros, neste país à beira-mar oprimido. Ensinaram-me que nessa altura não se podia falar à vontade e tínhamos que ter um filtro entre o cérebro e a boca chamado “medo” que era fornecido por uma empresa chamada PIDE. A PIDE era como o actual Ministério das Finanças, mas em relação às palavras e às letras: vasculhavam tudo e no fim há sempre alguma coisa para pagar.

 

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Os homens e as mulheres tinham direitos e deveres diferentes, com prejuízo para as mulheres, para variar.

Nessa altura Portugal ainda possuía colónias, que é o que eles chamavam aos países que invadiam e roubavam pelo uso da força.

Qualquer pessoa que tivesse a triste ideia de criar forças opositoras ao regime era colocada em regimes de excepção chamados: Censura, Perseguição, Prisão e Tortura. Era um clima bom de progresso e de integração com os restantes países europeus do qual não resultou nenhum atraso no desenvolvimento da nação. Nunca mais no país se conseguiu criar nenhum isolamento com aquela durabilidade de quatro décadas.

Para todos aqueles que agora não gostam de ir à escola: imaginem trocarem os vossos livros, recreios e diversão por baldes de massa e trabalhos na agricultura de sol a sol e sem férias. Isso sim, era vida, os velhos sabem lá o que dizem…

A tua presença naquele ano mudou tudo, principalmente quando criaram a constituição que defendia:

— Igualdade de todos perante a Lei: nunca mais houve diferença entre ricos e pobres no sistema judicial, principalmente na capacidade de pagar bons advogados que consigam arrastar processos até ao seu arquivamento.

— Foram criados partidos políticos que permitiram o aparecimento de corruptos prontos a usar e abusar da lei acima referida.

— Liberdade de expressão, excepto quando se diz mal de alguém com poder. Aí a liberdade de expressão chama-se difamação, o que faz com que os poderosos possam usufruir das duas condições acima desta para voltar a censu… a manter a ordem, digo.

— Direito ao trabalho, no mínimo de quarenta anos contributivos que normalmente acabam aos quarenta e cinco de idade por já estarem “demasiados velhos para trabalhar, mas demasiado novos para a reforma”. Ah e quase me esquecia: maioritariamente mal pagos, mas sempre muito bem taxados.

— Direito à greve, desde que se mantenham os serviços mínimos na ordem dos 200%.

— Direito à educação: para quem conseguir pagar as propinas enormes no ensino superior.

— Direito à saúde: e listas de espera de anos, e em consultas de especialidade a centenas de quilómetros.

Mas nem tudo foi assim tão bom, desde que apareceste naquele ano revolucionário. É que o turismo cresceu tanto que até o FMI já veio visitar-nos três vezes com uma mala carregada de dinheiro em troca de um monte de mexidas legislativas para acabar com esta festança que ia ser um povo com direito a uma vida minimamente digna. E cheira-me que voltarão novamente assim que isto voltar a parecer um país justo.

Precisamos de outro 25 de Abril, por mim seria já dia 26, para termos dois feriados seguidos. Isso sim, seria história como deve ser. Só que não voltará a existir alguém com a coragem para outra revolução. É aquilo a que chamam liberdade nos dias de hoje.

Ainda assim, eu gosto muito de ti (um feriado vem sempre a calhar) mas também porque sem ti naquele ano, este texto nunca seria possível (Pensando bem, já vinha a calhar uma nova ditadura para pôr mão nesta vergonha de texto).

Adoro-te 25 de Abril!

 

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