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Carola Ponto e Vírgula

Carola Ponto e Vírgula

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Olá a todos bem-vindos a mais uma opinião. Hoje temos “O Fim da Inocência II” de Francisco Salgueiro, edição Oficina do Livro. Este livro foi escolhido no Instagram como uma das leituras para este mês de Outubro.

Este livro sendo independente do primeiro, segue o mesmo tema: a vida adolescente nesta época de Internet, Smatphones, Redes Sociais e Likes. Aqui contamos com o relato de um jovem, Gonçalo, que nos vai contando como foi a sua vida de adolescente e como esta foi mudando tão rápido e sempre para pior.
Ao ler estes relatos tive sempre dois pensamentos bem diferentes. Numa página pensava: “Também queria ter uma adolescência destas, isto é que é curtir”! Na página seguinte e após mais uma revelação estonteante, ficava-me pelo: “Ainda bem que não passei por isto!”.

 

“As mensagens hardcore… bem, eram isso mesmo. Fotografias, às vezes vídeos delas nuas, delas a fingirem que se masturbavam ou a beijarem a melhor amiga na boca. Muitas eram montagens, outras eram mesmo reais. Os textos que acompanhavam as mensagens eram também muito directos: «Queres foder?», «Quero fazer-te um broche», «Quero que me comas» Sim, as raparigas tinham entre os 12 e os 15 anos. Isto é normal hoje em dia, e uma aberração no tempo dos nossos pais.”

 

 

 

É muito fácil culpar os pais por não verem o que se passa com os seus filhos. Os pais culpam a vida por ser difícil, sempre cheia de trabalho e por não deixarem tempo livre para dar atenção aos filhos, enquanto eles crescem à velocidade da luz, desamparados e prontos a perderem-se nas tentações sexuais e das drogas.

É óbvio que os pais estão sempre desactualizados em relação aos novos perigos que os filhos enfrentam, acho que terá sido sempre assim. O problema dos dias de hoje é que a informação, para o bem e para o mal, está à curta distância de um clique.

 

“Era sobre isto que o meu pai me devia ter falado, sobre estas coisas de que nenhum de nós se tinha lembrado. A conversa do meu pai tinha 20 anos de atraso em relação à realidade e, por causa disso, nós estávamos cheios de medo de que as fotografias da Madalena, nua, fossem parar à Net.”

 

 

A escrita de Francisco Salgueiro é um retrato real seja no conteúdo, seja na linguagem usada pelos jovens, o que revela um grande conhecimento de causa e investigação. Gostava que este livro, tal como o seu antecessor chegasse à casa de todos os pais. Iriam ficar chocados e pensar que era impossível os seus filhos estarem metidos em problemas semelhantes aos relatados neste livro.

Acredito que seja esse um dos principais propósitos desta obra: alertar os pais para vigiarem, educarem e estarem presentes na vida dos seus filhos, sabendo que irão cometer disparates e que não lhes irão contar tudo, mas que se virem nos pais alguém que os apoia, irão procurar o seu auxílio para resolverem a sua vida.

 

“Já era tarde. Tinha de me ir embora. Naquele momento, perto de a perder, comecei a pensar pela primeira vez que havia muitas coisas, fora da cama, que eu gostaria de ter feito de forma diferente com a Madalena. Talvez devêssemos ter falado mais e enviado menos SMS. Talvez existisse uma outra Madalena para além dos posts que ela colocava no Facebook. Talvez devêssemos ter percebido que comunicámos demasiado de forma virtual.  A nossa geração ligava-se mais online do que ao vivo.”

 

 

E porque a escola é aprender, também a escola precisa de se educar para estar atenta aos sinais e não achar que tudo isto é normal… para delinquentes e que já não há nada a fazer.

Mais uma vez foi um relato difícil de engolir, porque assusta ver o nosso futuro em terrenos tão perigosos, mas que gostei muito de ler, porque me alertou e relembrou que é preciso estar muito atento àquilo que as nossas crianças vão fazendo, por vezes, mesmo debaixo dos nossos narizes.

Se houvesse uma escola para se aprender a ser pai, estes dois livros de Francisco Salgueiro seriam de leitura obrigatória. A inocência só será boa se tiver quem a proteja. Obrigado e até à próxima.

 

“Sem nos apercebermos estávamos viciados no Facebook. Vivíamos numa cultura onde éramos avaliados pelo número de likes, que normalmente só apareciam quanto mais sádicos ou masoquistas fossem os posts. As redes sociais estavam a tornar-nos mais competitivos. Vivíamos na adrenalina dos likes. Precisávamos de público. Era uma espécie de prostituição social. Tudo valia desde que nos desse visibilidade.”