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Carola Ponto e Vírgula

Carola Ponto e Vírgula

1000 Palavras por dia.png

 

Estava ele no bar a ver o Benfica vs. Porto com uma azia descomunal à conta do terceiro golo dos dragões e nisto pensa (se é que isso alguma vez aconteceu):

— Fecunde-se (substituir por vernáculo que completa o título do livro: “A Arte Subtil...), deixa cá ver o que anda no Instagram…

E lá foi ele, feito TV Guia, bisbilhotar os instastories. Um dos primeiros a ver é sempre o do blogue “A mulher que ama livros” e num aparece a pergunta: “Que tal um desafio de escrita de 7 dias?”. Lembremo-nos que nem há trinta segundos ele ainda era um adepto esperançoso com um possível empate e quando dá por ela já está a leVAR (Fábio Veríssimo o quê?!) mais um no fundo da baliza. Assim, e para poder ler a frase, decide parar a imagem e é aí que tudo se complica… Ele carrega logo no “Sim” da sondagem e aceita o desafio sem sequer saber as regras do mesmo (sentiu-se um imigrante a assinar papel comercial do BES).

Mas ele não se deixou amedrontar: “És um homem ou és um rato?!”, pensou. E quanto mais pensava, mais se imaginava o mestre Splinter das Tartarugas Ninjas.

 

mestre splinter.jpg

 

Ainda no bar e para se sentir novamente um homem a sério, pede uma bebida para o ajudar a pôr as ideias no lugar. Nada como uma coca-cola com gelo e limão para ressuscitar o macho que há em nós! E foi então que decidiu ver as regras do desafio, esperando que fosse tudo menos escrever umas 1000 palavras por dia…

E não é que o desafio, de sete dias, consiste mesmo em escrever 1000 palavras por dia?! Mas afinal a dona Cláudia (autora do blogue, para quem ainda vive numa caverna) pensa o quê?! Que todos têm o tempo dela?! Lá porque ela consegue tomar conta de quatro crianças (duas delas, recém-nascidas), manter um blogue sempre actualizado e com muitas novidades e ainda lê que nunca mais acaba, acha que toda a gente tem que ser a supermulher como ela?!

 

super mulher.jpg

 

Primeiro que tudo, ele é um homem, quando muito seria um super-travesti! Decidido a manter-se um homem de barba rija, compromete-se com ele mesmo a seguir com o desafio em vez de inventar uma desculpa como: “Ah e tal estava a ver os instastories e carreguei no sim sem querer, sendo assim não vou participar! A culpa foi do golo do Porto, já vou leVAR (mas quem é que falou no Fábio Veríssimo agora?!) com a festa dos portistas nos próximos dias e ainda tenho que pensar numa maneira de conseguir escrever 1000 palavras por dia, durante 7 dias?! Nem pensar nisso, não faço!”. Nada disso, ele fez-se um homem e abraçou o desafio. O que são 1000 palavras num dia?! Ele já tem um blogue (muito jeitozinho por sinal, principalmente para quem gosta de livros e ler uns disparates de vez em quando). Sabe muito bem que não é fácil arranjar tempo na sua agenda ocupadíssima para conseguir ser mais regular nas suas publicações: é muita preguiça, é muito YouTube, é muito “olhar para o tecto a pensar no nada”.

Mesmo depois destes constrangimentos todos (sim, cuidar de gémeos é muito mais fácil de certeza) ele decide ir para a frente com o desafio.

Parte rumo a um mundo desconhecido, o qual anseia conhecer e onde sabe que quer ser bem-sucedido e atingir esses objectivos propostos. Parte confiante:

“1000 palavras por dia, o que é isso para mim?! Isso não custa nada! Durante 7 dias?! Pronto, então terei que ser minimamente consistente e publicar algo todos os dias, ou seja, faço isto com uma perna às costas, desenvolvo mais um hábito que adoro e vou parecer um exemplo de dedicação e qualidade ao mais alto nível!”.

Depois chega uma das partes mais fáceis, pensar sobre o que vai escrever: fala sobre as notícias do dia?! Cria um espaço novo de raiz?! Fala sobre os seus ídolos?! Relembra os momentos mais importantes da sua vida?! Todas estas hipóteses e ele… zero. Não tem nenhuma ideia de como vai começar, nem de como vai conseguir cumprir o primeiro dia do desafio, quanto mais fazê-lo durante 7 dias.

 

sozinho em casa.png

 

Entra em pânico, não sabe o que fazer à vida dele, pensa inclusive em suicidar-se, mas depois pensa (as vezes que ele pensou desde que aceitou o desafio já é um recorde pessoal): “Isto se calhar é fome”. E lá foi ele comer qualquer coisa e com isso a vontade de cortar os pulsos passou.

“Afinal era mesmo só fome, vamos lá por mãos à obra”, pensou.

Sentia-se revigorado e cheio de vontade de começar a escrever. Aquela pizza carbonara familiar estava divinal, nada mau para um lanchinho.

Completamente concentrado e alheado de tudo o que o rodeava, começou a escrever com uma cadência tal que esgotou tudo o que tinha imaginado no primeiro parágrafo. Olhou para a contagem das palavras, marcavam trinta e uma… deu-se ao trabalho de fazer contas e tudo: trinta e uma palavras equivaliam a uns míseros três vírgula por cento do objectivo final. Ele e a matemática sempre tiveram uma relação de amor/ódio. Ele amava a matemática, mas ela insistia em impor-lhe cada vez mais problemas e com o tempo a relação desgastou-se e chegou ao fim. Foram treze anos de muitas aventuras (sim, ele ainda se esforçou e deu-lhe mais uma chance) mas era impossível continuar. Uma coisa ele sabia: se há coisa que a matemática é, é ser séria, sincera e não mentia. Por isso olhou durante horas a fio para aqueles três vírgula um por cento e chegou à conclusão que se ia suicidar… Eis senão quando pensa uma última vez: “Isto se calhar é fome, tô pizzaria, agora era uma quatro estações familiar por favor”!

E foi assim que ao fim de quatro pizzas familiares conseguiu… escrever quatro parágrafos.

 

Contagem: 974 (pronto agora com o número já tem mais uma palavra… e com estas palavras todas, já tem mais umas quantas. Oh porra isto assim nunca mais acaba e vou estar sempre a acrescentar mais e mais. Ficamos assim, amanhã no fim eu meto o número da contagem de palavras e esse número já se conta a si próprio, entendido?!)