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Carola Ponto e Vírgula

Carola Ponto e Vírgula

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Olá a todos! Venho hoje falar do livro do mês de Fevereiro para o The Bibliophile Club. Calma, eu sei que já estamos em Março, mas é Carnaval ninguém leva a mal (safei-me com esta desculpa?!).

Então temos “O Regresso” de Kristin Hannah, no meu caso, com uma edição de capa dura da Círculo de Leitores. Este é o segundo livro que leio desta escritora, sendo que o primeiro foi das leituras que, até aquela altura, mais mexeu comigo. Se nunca leram “Estrada da Noite”, façam o favor de ler, é muito bom. Se já leram, comentem aí se gostaram ou não! Vamos então ao meu regresso (e este trocadilho?! Mau, eu sei!) à escrita de Kristin Hannah.

Neste livro temos a história de Jolene, piloto de helicóptero no exército norte-americano, que no mesmo dia fica a saber que o marido já não a ama e que foi destacada para a guerra no Iraque. Jolene só por si já é uma personagem complexa, com uma infância difícil e repleta de traumas, via neste casamento e nas suas duas filhas, uma família feliz e um “felizes para sempre” garantido. Mas tudo muda de figura naquele dia em que o Michael diz já não a amar. Literalmente no meio disto, entra a guerra e a partida de Jolene para o Iraque.

“Jolene soube no mesmo instante que havia ido longe de mais; percebeu isso pela forma como Michael ficou tenso.

— Desculpa. Não foi isso que eu quis dizer. Sei o quanto o amavas, mas…

— Não aguento mais — disse em voz baixa, abanando a cabeça.

Jolene franziu o sobrolho.

— Aguentar o quê?

— Não quero mais isto.

— Que raio está a passar-se, Michael? Meteste a pata na poça hoje. Porque não podes…

Michael olhou para ela.

— Não te amo, Jo.

— O quê?

— Já não te amo.

— Mas…

Foi como se algo dentro dela estivesse a despedaçar-se, os músculos a rasgar-se, separando-se dos ossos. Jolene agarrou-se à borda da bancada para se apoiar. No meio do barulho estrondoso que havia dentro da sua cabeça, ouviu uma leve respiração reprimida. Virou-se devagar, devagar, devagar, pensando, por favor, meu Deus, não…

Betsy estava de pé na sala de estar, com a fita que ganhou pelo segundo lugar na mão. Arquejou baixinho, arregalando os olhos lentamente, compreendendo tudo. Depois, virou costas e correu pelas escadas acima.”

 

 

 

A guerra, como sempre, é a guerra, é a violência, é o defender os interesses da nação (não falemos em petróleo, ok?!) e tudo isso mexeu com a vida de Jolene lá, e também com a vida de Michael em casa, a ter que educar e cuidar diariamente e sem a presença da mãe das suas filhas. Tudo isto modifica muito este casal e quando se dá o regresso, já nada entre eles é igual! De um lado temos uma traumatizada de guerra, do outro temos um marido arrependido e pronto para ajudar a sua mulher a conseguir sobreviver a esse inferno pós-guerra, isto enquanto duas crianças observam assustadas com aquilo em que se tornou aquela família.

 

“Acordou, ainda aos gritos.

Demorou um segundo para se lembrar onde estava: num hospital. Na Alemanha.

Mexeu-se com extremo cuidado, levantando a cabeça da almofada. Sentia-se tonta e confusa, um pouco enjoada e com o estômago revolto. Através de uma fenda nas pálpebras, viu as máquinas à sua volta. Aquele aspirador que chiava e sugava tinha desaparecido. Assim como o cheiro a carne apodrecida. Agora cheirava-lhe a desinfetante e a plástico.

Jolene tentou soerguer-se num cotovelo, mas o esforço esgotou-a. Respirando com dificuldade, tonta, contemplou as pernas.

Perna.

Do joelho para baixo, o lado direito da sua cama era apenas uma extensão lisa de cobertores brancos. Jolene tinha uma vaga memória de recobrar os sentidos, de ver as enfermeiras e os médicos ir e vir, vigiando a sua evolução.

Haviam-lhe amputado a perna. Cortaram-na pelo joelho.

Jolene agarrou numa almofada, tapou a boca e uivou de desgosto e de dor; gritou até a garganta ficar ressequida, até lhe arderem os olhos e lhe doer o peito. Imaginou a sua nova vida, desequilibrada, estropiada, destroçada, e cada imagem era uma cicatriz que tinha que entender — nunca mais poderia pilotar Black Hawks nem correr pela praia, nem pegar nas filhas ao colo e rodopiar com elas num dia de verão.”

 

 

Adorei este livro, foi mais um belo “5 Estrelas” no Goodreads, e até tive que abrandar a leitura para poder absorver todos os aspectos desta trama. As personagens, tal como aconteceu no livro anterior que li dela, tem muita profundidade, estão bem descritas, quase que as podemos ver (sim, se desse um filme ou uma série não se perdia nada), sentir e identificarmo-nos com pequenos aspectos da personalidade delas. Depois o enredo também é muito bem explorado, prendendo-nos de uma forma em que até conseguimos sentir o sofrimento e as perspectivas de cada um.

Adoro estes romances assim, densos e cheios de emoções, e com isto confirmo que Kristin Hannah será uma daquelas escritoras a acompanhar de muito perto a cada novo lançamento!

Espero que tenham gostado desta opinião, amanhã irei falar da minha escolha para este clube literário para o mês de Março. Até lá, digam de vossa justiça e muito obrigado!

 

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“Não sabia dizer quanto tempo ali esteve de pé, a pensar, a preocupar-se, a observar a chuva transformar o acesso à casa num lamaçal; tudo o que sabia era que a dada altura tomou consciência de um inacreditável e sobrenatural clarão de cor na noite.

Vermelho. A cor do sangue, do fogo e da perda.

Quando o carro da polícia parou à entrada de casa, Jolene não ficou surpreendida. O que a surpreendeu foi o que sentiu quando soube que os pais tinham morrido.

O que a surpreendeu foi a dificuldade que teve em chorar.”

 

“— Sou especializado em perturbação do stresse pós-traumático. Assim que soube que Keith Keller foi um antigo fuzileiro, deu uma vista de olhos ao caso dele. Realizou duas missões no Iraque — disse o psiquiatra abanando a cabeça. — O VA é absolutamente criminoso na sua negligência em ajudar as tropas que regressam do Iraque. Quando esta maldita guerra terminar, vamos acabar por ter centenas de milhares de soldados com traumas muito sérios tentando apanhar e colar os cacos das suas vidas. O que aconteceu com Keith vai tornar-se, por desgraça, demasiado comum, caso não comecemos a ajudar estes jovens.”